sábado, 3 de setembro de 2011

Da Real 48 à Nacional 110: a Estrada Verde e a sua rara beleza de sempre




Mudou-se-lhe o nome mas não mudou, passados 102 anos, o "cenário deslumbrante e cheio de contrastes" que "nem mesmo uma fita cinematográfica seria capaz de reproduzir". Assim o entendia, em 1909, Emídio da Silva, quando na revista Serões publicou dois trabalhos sobre Penacova e Lorvão.

Outros autores traçaram, pela força das palavras, antes e depois deste jornalista intimamente ligado à vila, belos quadros sobre Penacova e o Mondego. A par das telas de pintores famosos, como Eugénio Moreira e José Campas, há um vasto leque de artistas que nos legaram raros momentos de idílica leitura  e demorada contemplação estética.

A iniciar um conjunto de artigos sobre estas figuras da arte e das letras, bem como as suas obras, transcrevemos um excerto de um artigo ilustrado com fotografias da época, assinado por L. Mano, que como sabemos era um pseudónimo de Emídio da Silva, colaborador do Diário de Notícias, usado também por vezes na imprensa local onde colaborou. No próximo número faremos referência a outro texto, publicado também na referida revista, onde são descritos os recantos da vila e dos arredores, com uma ida ao Penedo do Castro. Fiquemo-nos, pois, com as palavras de Emídio da Silva:

" Já se pode ir a Penacova por Coimbra e a estrada que lá nos conduz levará ali todos os estrangeiros que visitem Portugal, quando esta região estiver nas condições de os hospedar. Esta estrada só por si vale a viagem, quando o panorama que se goza em Penacova, do Penedo do Castro ou do Mirante Emygdio da Silva não sejam dos mais deslumbrantes que é dado contemplar aos que percorrem o mundo na demanda do pitoresco e do belo surpreendente.

A estrada de Coimbra a Penacova segue a margem direita do Mondego, cingindo-se tanto quanto possível às ondulações da encosta e à linha caprichosa do talweg desse rio que percorre uma das regiões mais pitorescas e variadas, ora espraiando-se por campos feracíssimos através de hortas e laranjais, ora apertado entre aprumados alcantis onde a vegetação nem sempre consegue ocultar os massiços de rocha que se destacam magestosos daquela paisagem luxuriante.

Essa estrada, que nem mesmo uma fita cinematográfica seria capaz de reproduzir, é com efeito um dos mais belos trechos do Portugal pitoresco e não conhecemos muitas que sob este aspecto se lhe avantagem na Europa dos touristes.

É no meio deste cenário deslumbrante e cheio de contrastes flagrantes, que surge a vila de Penacova, debruçada sobre o Mondego, que domina de grande altura, abrangendo por isso um vasto panorama em que os olhos se perdem extasiados num horizonte longínquo que serve de esfumada moldura a uma imensa paisagem, ora retalhada de pinhais ou sobrepujada de penedias que dão ao quadro uma tonalidade grave e austera, ora entrecortada de pomares, de vinhas e de milheirais, numa harmonia quasi geométrica que é felizmente quebrada aqui e acolá, perto ou longe, inúmeras vezes, pelo casario branco das vilas, das aldeias e dos lugarejos que põe manchas alegres e dá vida e animação a esta grandiosa tela do maior e mais divino dos mestres – a Natureza! "

Em boa hora se realizaram as importantes obras da agora designada Estrada Verde, criando melhores condições para aceder ao convite para a percorrer e admirar a paisagem deslumbrante que todos nós conhecemos.

David Almeida,
publicado na edição de Julho
do jornal NOVA ESPERANÇA

2 comentários:

  1. Belíssimo artigo, dá para enxergar cada trecho da estrada lendo-o com carinho e cuidado. Descirção apaixonada e poética de alguém que há muito já valorizava essa Terra maravilhosa de Penacova.
    Parabéns David.

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