Penedo do Castro e Mirante
"A ascenção do Penedo do Castro faz-se por um caminho de pastores, que parte da estrada que atravessa a vila e se dirige ao Botão". Outro caminho será, se para tal se tiver pedido autorização, " através da formosa mata que fica sobranceira à vivenda solarenga do abastado capitalista sr. Joaquim Augusto de Carvalho e que é situada junto da referida estrada."
Emídio da Silva conta-nos depois a origem da nova designação para o Penedo da Cheira e enaltece a grandiosidade do panorama que daí se avista. Explica ele que " o Penedo do Castro, que é formado por uma aglomeração de rochas de granito que encimam a colina e se destacam da paisagem verdejante que circunda a vila, deve a sua designação actual a uma justa homenagem que os habitantes de Penacova e outros admiradores do sábio bibliófilo conimbricense Dr. Augusto Mendes Simões de Castro, reunidos com a Câmara Municipal da presidência do Dr. José Albino Ferreira, resolveram tributar a um dos mais antigos propagandistas das belezas da região, crismando no seu último nome o Penedo da Cheira, como era designado até então." Note-se que, um ano antes destes escritos, havia sido a inauguração do Mirante, bem como da lápide acima referida, onde estiveram além dele, Raul Lino, Alfredo da Cunha (director do Diário de Notícias) e outras personalidades da época vindas de Lisboa.
Mas Emídio da Silva compara os panoramas que se avistam do Penedo e do Mirante. É que, "ao passo que o Mirante Emídio da Silva é o centro de um grande sector, embora de rara beleza, o Penedo do Castro é o Centro de um círculo imenso. Se o panorama do primeiro encanta e extasia como um quadro que os olhos abrangem de um só relance e nele ficam pousados longamente, em uma enlevada contemplação, o panorama do Penedo arrebata e estonteia, e não se fixa facilmente, tantos são os sectores que ele tem para observar e quão diversas as paisagens que eles apresentam." Como muito bem observa, exige um "ver-se devagar".
A seguir a estas duas "excursões", este propagandista de Penacova, leva o leitor até Entre Penedos, começando por sugerir dois caminhos para lá chegar.
Entre-Penedos
"A excursão a Entre-Penedos pode fazer-se hoje de duas formas: pelo Mondego acima, de barco, que facilmente se encontra, ou descendo em trem a estrada de Penacova até à margem do rio, atravessando este depois sobre a magnífica ponte metálica José Luciano e seguindo a estrda da margem esquerda, numa extensão de dois quilómetros." E dá a sua opinião: " A excursão pelo rio tem incontestavelmente maior encanto." Deixa também uma pequena explicação geomorfólógica daquele local: "Pretendem os geólogos que em épocas remotas não existia a estreita e extensa garganta formada pelos elevados rochedos entre os quais passa hoje rude e trágico o rio lendário dos idílios. O que é realmente certo, é que a estratificação das rochas de uma e outra margem se correspondem, camada por camada, como nas monumentais Portas de Ródão, no Tejo, parecendo evidente que nos primeiros períodos de formação do globo a serra do Bussaco não tinha ainda sofrido o corte que depois lhe fez o Mondego, quando a encontrou no seu curso e lhe escavou essa profunda e pitoresca trincheira que se chama Entre Penedos ou Livraria do Mondego, nome que o povo também lhe deu na imaginosa comparação que fez dos estratos dos xistos às lombadas regulares de uma biblioteca".
A terminar este conjunto de sugestões, que ainda hoje nos poderiam servir para um guia de Pedestrianismo, Emídio da Silva, não esquece o Montalto e o Penedo da Carvoeira. Montalto que, pela invasão actual do eucalipto, não nos permite observar o magestoso panorama que, neste texto de 1909, é descrito. Acompanhemos mais um pouco o nosso cicerone e ao chegar ao Montalto, a esse "ponto culminante" recordemo-nos, por exemplo, que "junto da capela postou Wellington algumas peças de artilharia por ocasião da batalha do Bussaco."
O Penedo da Carvoeira e o Montalto
"Entre outras excursões interessantíssimas e que constituem verdadeiras ascenções, devem ser preferidas: a do Penedo da Carvoeira, do outro lado do Mondego, defronte de Penacova, bastante curiosa pela colina em si, e ainda pelo panorama que se disfruta do ponto mais elevado, avistando-se toda a vila e grandes extensões de montes, vales e rio; e a da capela da Senhora do Mont'Alto no cimo deste monte, que é um ponto de vista dos mais notáveis da região, divisando-se de lá as caprichosas curvas que o Mondego descreve num longo percurso e um vastíssimo e também maravilhoso panorama."
Ficamo-nos hoje por aqui. No próximo número acompanharemos o "Cristóvão Colombo" de Penacova na "excursão clássica" a Lorvão, onde o Mosteiro "apesar de se encontrar em ruinas" e mesmo "arrasado em parte " (1909) é ainda um monumento de "subido valor histórico", segundo a opinião abalizada de Emídio da Silva.David Almeida
in NOVA ESPERANÇA
edição de Agosto 2011