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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Visitar Lorvão em 1909

Nos dois últimos números acompanhámos Emídio da Silva desde Coimbra, vindo pela marginal do Mondego e com ele visitámos os pontos principais da vila de Penacova. A "rematar" estas "excursões" vamos hoje até Lorvão. Como é do conhecimento dos nossos leitores, e tal como fizemos anteriormente, vamos transcrever o artigo de L. Mano (pseudónimo), publicado na revista Serões.

"O Mosteiro de Lorvão foi um dos mais notáveis do país e apesar de se encontrar hoje (1909) em ruínas, e mesmo arrasado em parte, é ainda um monumento de subido valor histórico e um repositório de arte muito curioso e interessante. O convento fica ao fundo de um estreito vale, ocupando um local aprasível que se nos impõe pela sua austera beleza e que podia ser no Verão concorridíssimo, dada a frondosa arborização da encosta adjacente ao mosteiro e a frescura dos deliciosos mananciais de água que vêm dos granitos da montanha.

Mas a laboriosíssima aldeia não tem sequer ainda uma estrada que a ligue às outras do país e para se ir lá, de Penacova, pela estrada do Botão, tem de se deixar esta dois ou três quilómetros de Penacova e seguir a pé ou em burro por uma extensa ladeira que leva a descer 30 minutos!...

E no entanto, Lorvão bem merecia que os poderes públicos tivessem olhado um pouco mais para ela pois a simpática aldeia não vive passivamente da tradição dos seus monumentos, como outras de Portugal mas do constante e esforçado labor dos seus filhos que desde os de mais tenra idade até aos da mais provecta, se dedicam inteiramente à fabricação dos palitos de dentes, que tem ali o maior centro de produção do concelho de Penacova, do qual constitui, como é sabido, a indústria mais importante.

Mas se os poderes públicos deixam quase ao abandono os restos do grandioso mosteiro que é um monumento nacional !..O seu pitoresco claustro foi demolido e as cantarias vendidas ou roubadas! No esplêndido templo, de grandes e nobres proporções chove como na rua e o magnificiente coro que é um dos melhores exemplares da nossa época do rococó está destinado a desaparecer, atacado pelo caruncho ou pelas mesmas mãos que destruiram o claustro…

Quando vou a Lorvão e ainda lá encontro perdida naquelas ruinas solitárias, como um náufrago que escapou a cem porcelas, a custódia de prata dourada guarnecida de pedrarias – uma relíquia da nossa arte sumptuária do século XVIII – esquecida e inapreciada na vasta igreja, hoje sertaneja, e vejo ao mesmo tempo abandonados os sarcófagos de prata que contêm os restos das infantas, filhas de D. Sancho I, não posso deixar de fazer as mais amargas reflexões acerca da conservação que Portugal dedica aos seus monumentos."
Nota sobre Emídio da Silva:
Escreve a revista Serões: Colaborador há muitos anos e de várias secçõs do Diário de Notícias, e principalmente dos artigos financeiros, aos domingos, e das "Coisas e Loisas", às sextas feiras, possuindo vastos conhecimentos, tendo viajado largamente, Manoel Emygdio da Silva é uma
Individualidade em relevo no nosso meio da alta finança, literário e jornalístico. Deve-lhe a pitoresca povoação de Penacova uma propaganda activíssima, a ponto dos seus amigos o denominarem por gracejo o Cristóvão Colombo daquela adorável região.

David Almeida
in Jornal Nova Esperança, Set 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Visitar Penacova pela mão de Emídio da Silva


No número anterior acompanhámos Manuel Emídio da Silva ao longo da estrada de Coimbra a Penacova e, com ele, apreciámos melhor a rara beleza que esse percurso nos oferecia e ainda oferece actualmente. Hoje, também pela sua mão, vamos dar um passeio pela vila e arredores, seguindo as suas sugestões e prestando atenção aos seus comentários. Diz ele que "o viajante apressado que limitar a sua visita a Penacova a um simples passeio pela vila, ao adro da capela de Santo António, junto da linda vivenda do sr. Conselheiro Luís Duarte Sereno e ao Mirante Emídio da Silva, não viu o mais grandioso dos panoramas penacovenses." Sugere então que, para começar, se vá até ao Penedo do Castro.  

Penedo do Castro e Mirante

"A ascenção do Penedo do Castro faz-se por um caminho de pastores, que parte da estrada que atravessa a vila e se dirige ao Botão". Outro caminho será, se para tal se tiver pedido autorização, " através da formosa mata que fica sobranceira à vivenda solarenga do abastado capitalista sr. Joaquim Augusto de Carvalho e que é situada junto da referida estrada."

Emídio da Silva conta-nos depois a origem da nova designação para o Penedo da Cheira e enaltece a grandiosidade do panorama que daí se avista. Explica ele que " o Penedo do Castro, que é formado por uma aglomeração de rochas de granito que encimam a colina e se destacam da paisagem verdejante que circunda a vila, deve a sua designação actual a uma justa homenagem que os habitantes de Penacova e outros admiradores do sábio bibliófilo conimbricense Dr. Augusto Mendes Simões de Castro, reunidos com a Câmara Municipal da presidência do Dr. José Albino Ferreira, resolveram tributar a um dos mais antigos propagandistas das belezas da região, crismando no seu último nome o Penedo da Cheira, como era designado até então." Note-se que, um ano antes destes escritos, havia sido a inauguração do Mirante, bem como da lápide acima referida, onde estiveram além dele, Raul Lino, Alfredo da Cunha (director do Diário de Notícias) e outras personalidades da época vindas de Lisboa.

Mas Emídio da Silva compara os panoramas que se avistam do Penedo e do Mirante. É que, "ao passo que o Mirante Emídio da Silva é o centro de um grande sector, embora de rara beleza, o Penedo do Castro é o Centro de um círculo imenso. Se o panorama do primeiro encanta e extasia como um quadro que os olhos abrangem de um só relance e nele ficam pousados longamente, em uma enlevada contemplação, o panorama do Penedo arrebata e estonteia, e não se fixa facilmente, tantos são os sectores que ele tem para observar e quão diversas as paisagens que eles apresentam." Como muito bem observa, exige um "ver-se devagar".

A seguir a estas duas "excursões", este propagandista de Penacova, leva o leitor até Entre Penedos, começando por sugerir dois caminhos para lá chegar.

Entre-Penedos

"A excursão a Entre-Penedos pode fazer-se hoje de duas formas: pelo Mondego acima, de barco, que facilmente se encontra, ou descendo em trem a estrada de Penacova até à margem do rio, atravessando este depois sobre a magnífica ponte metálica José Luciano e seguindo a estrda da margem esquerda, numa extensão de dois quilómetros." E dá a sua opinião:  " A excursão pelo rio tem incontestavelmente maior encanto." Deixa também uma pequena explicação geomorfólógica daquele local: "Pretendem os geólogos que em épocas remotas não existia a estreita e extensa garganta formada pelos elevados rochedos entre os quais passa hoje rude e trágico o rio lendário dos idílios. O que é realmente certo, é que a estratificação das rochas de uma e outra margem se correspondem, camada por camada, como nas monumentais Portas de Ródão, no Tejo, parecendo evidente que nos primeiros períodos de formação do globo a serra do Bussaco não tinha ainda sofrido o corte que depois lhe fez o Mondego, quando a encontrou no seu curso e lhe escavou essa profunda e pitoresca trincheira que se chama Entre Penedos ou Livraria do Mondego, nome que o povo também lhe deu na imaginosa comparação que fez dos estratos dos xistos às lombadas regulares de uma biblioteca".

A terminar este conjunto de sugestões, que ainda hoje nos poderiam servir para um guia de Pedestrianismo, Emídio da Silva, não esquece o Montalto e o Penedo da Carvoeira. Montalto que, pela invasão actual do eucalipto, não nos permite observar o magestoso panorama que, neste texto de 1909, é descrito. Acompanhemos mais um pouco o nosso cicerone e ao chegar ao Montalto, a esse "ponto culminante" recordemo-nos, por exemplo, que "junto da capela postou Wellington algumas peças de artilharia por ocasião da batalha do Bussaco."

O Penedo da Carvoeira e o Montalto

"Entre outras excursões interessantíssimas e que constituem verdadeiras ascenções, devem ser preferidas: a do Penedo da Carvoeira, do outro lado do Mondego, defronte de Penacova, bastante curiosa pela colina em si, e ainda pelo panorama que se disfruta do ponto mais elevado, avistando-se toda a vila e grandes extensões de montes, vales e rio; e a da capela da Senhora do Mont'Alto no cimo deste monte, que é um ponto de vista dos mais notáveis da região, divisando-se de lá as caprichosas curvas que o Mondego descreve num longo percurso e um vastíssimo e também maravilhoso panorama."  
Ficamo-nos hoje por aqui. No próximo número acompanharemos o "Cristóvão Colombo" de Penacova na "excursão clássica" a Lorvão, onde o Mosteiro "apesar de se encontrar em ruinas" e mesmo "arrasado em parte " (1909) é ainda um monumento de "subido valor histórico", segundo a opinião abalizada de Emídio da Silva.

David Almeida
in NOVA ESPERANÇA
edição de Agosto 2011