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domingo, 13 de novembro de 2011

Um pintor (des)conhecido dos penacovenses

Se bem se recordam os nossos leitores, propusemo-nos trazer a este espaço diversos nomes que traçaram, através das letras e da pintura, um conjunto de quadros sobre Penacova e o Mondego. Escrevíamos, há três meses atrás, que "existe um vasto leque de artistas que nos legaram raros momentos de idílica leitura e demorada contemplação estética", entre eles, os pintores Eugénio Moreira e José Campas.

Depois de, nos últimos números, recordarmos os textos de Emídio da Silva, faremos hoje referência a um pintor que está ligado a Penacova. Menos conhecido que Eugénio Moreira (de que falaremos nos próximos números), José Campas deixou marcas da sua obra no nosso concelho. Ainda hoje a Câmara Municipal possui um quadro a óleo seu, tendo como tema o Mirante. Foi oferecido em Maio de 1916 aquando da deslocação de Raul Lino a Penacova, acompanhado por Emídio da Silva, no momento em que se começava a projectar a construção da Pérgola.
 
Mas a ligação de José Campas a Penacova já vem, se não de antes, de 1914 quando esteve patente uma exposição do artista no salão do palacete (actual Casa de Repouso) de Joaquim Augusto de Carvalho e Raimunda Martins de Carvalho, por ocasião do "casamento elegante" de Alberto de Castro Pita com América Martins de Carvalho, filha daquele casal. José Campas de Sousa Ferreira (1888-1971) é autor de várias obras relacionadas com o concelho: "Paliteira e Tricana", "Trecho do Mondego", "Entre Penacova e Rebordosa" e "Mirante Emídio da Silva". Obras que, provavelmente, terão estado expostas naquela ocasião.

Nascido em Lisboa, estudou Belas-Artes nesta cidade e em Paris. Discípulo de Carlos Reis, Leon Bonnat, J. P. Laurens e Jacques Jobbé-Duval, foi um respeitado paisagista. Obteve a primeira medalha em pintura, pela Sociedade de Belas Artes e foi premiado no "Salon des Artist Français". Está representado no Museu Grão-Vasco, no Museu de Arte Comtemporânea, no Museu Soares dos Reis e em muitas instituições públicas e privadas. Foi crítico de arte na imprensa portuguesa, delegado do Governo Português na Exposição Internacional de Paris de 1937, restaurador de arte, bibliófilo, coleccionador de obras de arte, professor em várias escolas e Director das Escolas Técnicas de Lagos e Abrantes. Pertenceu, igualmente, ao Instituto Português de Arqueologia, tendo sido correspondente das publicações Annuaire de la Curiosité des Beaux-Artes e Bibliophilie.

Deste pintor falou o arganilense, Veiga Simões, (Arganil, 1888 - Paris, 1954) integrando-o na corrente do neo-lusitanismo. Num artigo de 1909 escreve o seguinte:
"O pintor José Campas, contrariamente a Raul Lino segue um processo espontâneo ferindo de exclusivo aspectos portugueses, buscados ora na paisagem, na escolha dos detalhes focados, ora nos tipos que completam os seus quadros, ora nos costumes, ora nos próprios monumentos que conseguem acordar no seu espírito alguma coisa de português, por algum lado real ou lendário que os ligasse à terra. Conheço-lhe um campo coberto de malmequeres onde a impressão da cor domina por completo, com recortes da máxima variedade, só perceptíveis por uma retina muito sensível à paisagem portuguesa e que intencionalmente buscasse esse efeito […]. Agora que a maioria dos pintores se lança exclusivamente por motivos ideais, este artista, tão claramente português, refugia-se na nossa paisagem, sentindo-a, nitidamente e trasladando-a, como coisa sua, para os quadros que trabalha."

José Campas foi, assim, uma importante figura da cultura portuguesa que se deixou seduzir por Penacova e pelas suas belezas, o que muito nos honra. Recordá-lo é um acto de justiça.

David Almeida
Nova Esperança,  Outubro de 2011