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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Periódicos republicanos de S. Pedro de Alva

No último número traçámos as linhas gerais do Jornal de Penacova, que se publicou de 1901 a 1937, desempenhando, a partir de 1908, um papel crucial na defesa dos princípios republicanos.
A história da imprensa periódica no concelho de Penacova regista ainda outros títulos. De A Folha de Penacova e de O Progresso Lorvanense, bem como do Notícias de Penacova falaremos nos próximos números. Por hoje, deter-nos-emos em dois importantes jornais que se publicaram em S. Pedro de Alva: o Ecos de S. Pedro d'Alva e A Voz de S. Pedro de Alva.
No primeiro dia do mês de Maio de 1915 surge o Ecos de S. Pedro de Alva, periódico que manterá durante três anos uma publicação regular. Este quinzenário apresenta-se como ''Defensor dos Interesses da Casconha'' e assume-se como "consumação duma velha aspiração" de todos os ''republicanos convictos'' que pugnavam por aquela região com um espírito profundamente regionalista. Sob a direcção de Manuel Gentil da Natividade (professor) tinha como administrador António Nunes de Oliveira Serra. Joaquim dos Santos Cordeiro (mais tarde também ligado à Voz de S. Pedro de Alva) aparece como editor. Este jornal, propriedade da empresa "Ecos de S. Pedro de Alva", era composto e impresso no Porto, na Imprensa Comercial de Martins & Irmão, pois ali se encontrava estabelecido um significativo número de comerciantes e industriais oriundos da Casconha.

No conjunto das suas edições destaca-se o jornal de 1 de Abril de 1916 onde a toda a largura da primeira página se anuncia a formação do Governo da "União Sagrada" com fotografias de António José de Almeida, Afonso Costa e Bernardino Machado. Interessante é também a notícia em grande caixa, com título destacado "A Casconha tem Amigos queridos! O Chafariz de S. Pedro de Alva é um facto!" (1 de Fevereiro de 1917) anunciando o arranque dos estudos e prospecções tendo em vista a construção daquela tão ansiada obra, por influência do "querido amigo, o ilustre Senador, Sr. Lima Duque". Lima Duque figura importante da política penacovense e nacional, tinha, enquanto médico municipal, trabalhado em S. Pedro de Alva no início da sua carreia. A escassez de géneros de primeira necessidade e a crítica aos açambarcadores bem como a morte, em 1918, de João Gama Correia da Cunha, republicano convicto e professor do ensino primário de António José de Almeida, são exemplos da relevância que este periódico teve na região. Também a grave crise social e económica (na sequência da Primeira Guerra Mundial mas também das epidemias do tifo e da "pneumónica"e da grave seca que assolou o país) e a questão das "Subsistências" foi tema de notícia e de comentário neste periódico. Por motivo de inviabilidade financeira, o jornal teve uma curta existência: apenas 3 anos. Entre 1 de Maio de 1915 e 1 de Setembro de 1918 foram publicados 81 números.
Decorridos dez anos sobre a extinção do Ecos de S. Pedro de Alva, o Alto Concelho vê surgir um novo periódico, agora com o título A Voz de S. Pedro de Alva. Assumindo-se como ''Quinzenário Republicano Independente e Regionalista'', o primeiro número vem a lume no dia 16 de Abril de 1928, sob a direcção de Francisco Cordeiro dos Santos, tendo como editor e administrador, Eduardo Pedro da Silva. Tal como o Ecos, também era composto e impresso na Imprensa Comercial, no Porto. Nos últimos tempos de publicação passará a ser composto e impresso na Tipografia Lorvanense.
No primeiro editorial, ''Ao que vimos…'', é claramente expressa a missão a que o periódico se propõe: ''Faremos tudo quanto em nós caiba para trazermos à Casconha os melhoramentos a que tem juz, já que tão esquecida tem sido por aqueles que de nós só se lembram em ocasiões de eleições.'' Enquanto foi publicado, além da defesa dos interesses da Casconha, manteve acesa a chama republicana. Este jornal desempenhou um papel importante de defesa dos ideais da I República num período em que o Golpe Militar de 28 de Maio já se tinha verificado.  
É n' A Voz de S. Pedro de Alva que podemos encontrar a notícia desenvolvida sobre a morte, em 1929, de António José de Almeida. A capa da edição de 16 de Novembro é preenchida com o título: ''A Pátria e a República em Crepes: morreu o Dr. António José de Almeida'' E em subtítulo: ''Está de luto a Pátria e a República; está de luto o coração dos portugueses!'' Noticia A Voz que "assim que em S. Pedro de Alva, terra do venerando democrata, se soube do tristíssimo acontecimento, os seus conterrâneos vestiram de luto. A bandeira nacional, envolta em crepes, foi hasteada a meia adriça na nossa administração, ao mesmo tempo que eram expedidos muitos telegramas de pêsames à familia do egrégio cidadão. Ainda há poucos meses o ex-presidente da República, em carta, nos dizia que, quando estivesse melhor dos seus padecimentos, escreveria umas linhas para o nosso jornal, sendo dele as seguintes palavras: «Leio habitualmente a Voz de S. Pedro de Alva que é uma gazeta interessante, despretenciosa e séria. E para mais, estruturalmente republicana. Não desanimem» ''.
Este quinzenário não se cansará de enaltecer aquele seu ilustre conterrâneo, recordando que este grande "apóstolo da Democracia tinha um altar em todos os corações portugueses''. José de Oliveira e Costa escreverá que, perante o grande abalo que acabava de sofrer o país e ''sobretudo a grande massa liberal'' há que destacar o carácter bondoso deste vulto que ''professava a religião do Bem por interesse do próprio Bem''. Eduardo Silva, sobrinho de Eduardo Pedro da Silva, no artigo ''Horas de luto'' destaca também as qualidades de António José de Almeida, "o homem de palavra brotando da sua alma límpida, que na tribuna arrastava multidões em delírio de fé e patriotismo".
 
Publicar-se-á até 12 de Abril de 1934, dia em completará o sexto ano de vida. À data, Eduardo Pedro da Silva, farmacêutico, cunhado de António José de Almeida, acumulava as funções de director, editor e proprietário. No último número publicado, a suspensão não é abertamente declarada. No entanto, a afirmação de que A Voz de S. Pedro de Alva ''não morrerá'' mesmo que "alguma vez tenha de fazer um interregno", é já o prenúncio do fim próximo.

David Almeida,
artigo publicado no jornal FRONTAL de 9/11/2011
Fonte: David  Almeida, Penacova e a República na Imprensa Local, Edição da Câmara Municipal de Penacova. 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

Alfredo Fonseca: uma voz inconformada perante a extinção do concelho (1836-1853)

A propósito do lançamento do livro (Farinha Podre) S. Pedro de Alva – Figuras e Factos para a sua História
Da esq. para a direita: Alfredo Fonseca, Padre Correia Alves, Deputado Maurício Marques,
Presidente da Câmara, Humberto Oliveira e Luís Adelino, Presidente da Junta


Em 1836 existiam no nosso país 817 concelhos. Duma assentada, Passos Manuel extinguiu centenas deles, reorganizou e criou outros, de modo que no final desta revolução administrativa tínhamos apenas 351 municípios. Não se conhece, com rigor, como esta política foi implementada, mas tudo parece indicar que esta racionalização se baseou em motivos económicos. Em muitos casos os concelhos duplicavam os impostos cobrados pelo Estado; empréstimos novos sobrepunham-se a outros para pagamento de despesa com encargos de empréstimos anteriores. Assim, tornava-se imperioso extinguir concelhos - refere o Diário da Câmara de Deputados - os quais não tinham condições financeiras e agravavam a vida dos povos.
No entanto, a Reforma Administrativa de 1836 se por um lado suprimiu muitos concelhos que pelas suas pequenas dimensões não se tornavam viáveis por outro lado manteve e criou aqueles que por motivos de factores naturais e humanos ofereciam condições de viabilidade. Uma política "realista, tendo em vista o desenvolvimento do país rural" na opinião de Carlos Proença, um sampedralvense que escreveu Notícias Históricas de Mondalva.

Ora, num momento em que o número de concelhos leva uma forte machadada, Farinha Podre tem o privilégio de ascender a concelho. No distrito de Coimbra igual sorte tem o concelho de S. Miguel de Poiares, que apesar de passado pouco tempo ter sido extinto conseguiu recuperar mantendo-se até hoje. O concelho de Farinha Podre não teve o mesmo destino. Logo no ano seguinte perdeu a freguesia de Carapinha para o de Tábua e com os ventos centralizadores da Regeneração acabou por ser extinto, passados dezassete anos, por decreto de 31 de Dezembro de 1853. Recorde-se que no distrito tiveram igual destino os concelhos de Coja, Midões, Ançã e Tentúgal.
Se no Código Administrativo de Passos Manuel os concelhos, como vimos, foram reduzidos para 351, no Código de Costa Cabral, de 1842, cresceram para 381; mas com Rodrigues Sampaio, em 1878, reduziram-se para 290. Em 1880, Luciano de Castro não mexeu nos municípios e com João Franco, em 1895, apenas se acrescentou um concelho.

Segundo Carlos Proença, no seu livro Notícias Históricas de Mondalva (uma obra valiosa, com um manancial enorme de informação credível, que temos a sensação de ser pouco lida e estudada pelas pessoas da região), à extinção, o que já não bastava, "seguiu-se um período de instabilidade em que, em correlação com as desavenças e contendas partidárias, S. Pedro de Alva [à época Farinha Podre] e outras freguesias de Mondalva foram sendo reivindicadas pelos concelhos vizinhos de Tábua e Penacova".
O que aconteceu por aqui aconteceu por muitas outras terras do país em que as coisas andavam ao sabor dos partidos e das respectivas clientelas políticas e as lutas eleitorais e a corrupção política eram prática corrente.

Escreve ainda Carlos Proença sobre a extinção do concelho: "Às gerações vindouras caberá aceitar esta situação, se a considerarem plenamente consentânea com os interesses dos povos de Mondalva, ou pugnar por que seja retomada a experiência de 1836".
Ora, é nesta linha de inconformismo que se ergue a voz de Alfredo Fonseca ao publicar agora o livro  (Farinha Podre) S. Pedro de Alva – Figuras e Factos para a sua História.  Nesta obra ressalta o sentimento de que nem tudo foi feito nesse "fatídico" ano de 1853 e nos que se seguiram, no sentido de anular a decisão de extinguir um concelho que, apesar de contar com uma experiência de apenas 17 anos, se afirmava na região com potencialidades muito superiores, por exemplo, ao concelho de Tábua. Existe um "retrato" do concelho de Farinha Podre na obra Memória histórico-corográfica dos diversos concelhos do distrito de Coimbra de António Luís de Sousa Henriques Seco, publicado precisamente em 1853, mas que ainda contempla este concelho. Aliás, refere o autor que na recolha de elementos teve o auxílio do Administrador Concelhio, David Ubaldo Leitão que deu o nome à rua que dá acesso ao Paço Velho. Como todos sabemos, David Ubaldo era pai do Conselheiro Alípio Leitão e de Alberto Leitão, naturais de Paredes e bem conhecidos dos penacovenses.

Inconformismo e revolta que leva Alfredo Fonseca a escrever: "Maldito seja quem tais medidas tomou e que a terra lhe seja tão pesada em cima, como o peso do monumento a Cristo Rei, no alto de Almada, ou o Mosteiro dos Jerónimos em Belém".
Nas primeiras páginas do livro Alfredo Fonseca apresenta curiosos documentos relativos ao descontentamento das populações e dos poderes públicos após a extinção, transcrevendo um conjunto de petições dirigidas ao Rei e à Câmara dos Deputados. O autor passa de seguida a transcrever actas das sessões da Junta de Paróquia (a primeira acta transcrita data de 1864), percorrendo os momentos mais marcantes desta freguesia desde esses tempos aos nossos dias, tornando assim, acessíveis a muito mais pessoas, os documentos que atestam as atribulações, mas também os sucessos desta localidade que há vinte anos recuperou o título de vila.

David Almeida,
texto, sem foto,  publicado em A COMARCA DE ARGANIL,
8 de Setembro de 2011
Fotografia: David Almeida