Ambas viram nascer grandes figuras do republicanismo. Duas terras não muito distantes entre si, pertencentes aos concelhos confinantes de Penacova e Mortágua. Quase a terminar as Comemorações do Centenário da República e em vésperas da comemoração do centésimo quadragésimo quinto aniversário do nascimento de uma delas, será oportuno perguntar quantos mortaguenses sabem onde fica Vale da Vinha e quantos penacovenses conhecem Laceiras. E mais do que identificar a sua localização geográfica, saber quantos conhecem a vida e a obra literária e política destas personalidades daí naturais e que deixaram o seu nome indelevelmente gravado na nossa história pátria.
Referimo-nos, naturalmente, a José Tomás da Fonseca (1877-1968) e a António José de Almeida (1866-1929).
Tomás da Fonseca nasceu no lugar de Laceiras, freguesia de Pala, e António José de Almeida em Vale da Vinha, freguesia de S. Pedro de Alva. Ambos estudaram em Coimbra: o primeiro, no Seminário (1894) o segundo, na Faculdade de Medicina. Quando António José de Almeida esteve preso (1890) na cadeia daquela cidade, já estudante de medicina, Tomás da Fonseca tinha apenas treze anos. Não é, pois, muito provável que nessa passagem pela cidade do Mondego tenha havido convivência entre eles. António José de Almeida vai entretanto para S. Tomé, mas ao regressar, aí sim, muitas vezes se terão encontrado na campanha intensa e acidentada que precedeu a proclamação da República Portuguesa em 1910.
Exímios oradores, quer um quer outro, participaram em comícios do Partido Republicano nos últimos anos da monarquia. Recorde-se o grande comício em S. Pedro de Alva no dia 1 de Agosto de 1910 onde António José de Almeida e outros republicanos usaram da palavra. Mas recordemos também o comício de 8 de Março de 1908 na capital da Beira Alta. É que, "a caminho de Viseu", a comitiva de que também fazia parte António José de Almeida foi recebida por Tomás da Fonseca que apresentou a Tuna de Mortágua que tinha como patrono aquele republicano penacovense. Mas contemos muito resumidamente o episódio (jornal A Beira): estava previsto que alguns dos oradores no comício de Viseu saissem de Lisboa na tarde de 7 de Março e pernoitassem no Luso. Tal não aconteceu e acabaram por seguir para Santa Comba Dão. Ora, em Mortágua estava a ser preparada uma deslocação àquela vila termal para receber António José de Almeida e os correligionários que o acompanhavam. Valeu aos mortaguenses serem avisados a tempo e assim se dirigirem para Santa Comba, onde acordaram os "ilustres republicanos" ao som da " Marselhesa", tocada pela Filarmónica de Mortágua e pela Tuna António José de Almeida, da mesma vila, agrupamentos que acompanharam também a comitiva até Viseu. Este terá sido um dos momentos em que Tomás da Fonseca e António José de Almeida privaram muito de perto. Esta relação continuou e durante o Governo Provisório, após o 5 de Outubro, Tomás da Fonseca, além de ser chefe de gabinete do Ministro António Luís Gomes e, a seguir, de Teófilo Braga, "primeiro-ministro", terá sido secretário particular de António José de Almeida que, como sabemos, ocupava o cargo de Ministro do Interior. Nesta qualidade, António José de Almeida participou na elaboração e aplicação da Lei da Separação do Estado e da Igreja. Tomás da Fonseca, que depois de abandonar a via eclesiástica se tornara um dos maiores anticlericais da primeira república, terá pois estado muito próximo de António José de Almeida. No entanto, este assumirá uma via moderada enquanto Tomás da Fonseca manterá um posicionamento laicista radical, o que leva a supor um afastamento ideológico entre estas duas personalidades. Falta referir que entre Fevereiro e Setembro de 1910, Tomás da Fonseca colaborou na célebre revista dirigida por António José de Almeida, Alma Nacional. Outro ponto de contacto entre eles foi a preocupação com a educação e a instrução. Deve-se a António José de Almeida o mais importante diploma sobre instrução primária durante a I República, assinado em 29 de Março de 1911, enquanto Ministro do Interior do Governo Provisório. Este Decreto com força de Lei, preconizava a reorganização dos serviços de instrução primária, laicizando o ensino, ligando as escolas às Câmaras Municipais, beneficiando os professores, dividindo o ensino em infantil e primário e, este, em elementar, complementar e superior. Ora, também Tomás da Fonseca, profundo conhecedor dos problemas locais e então já director das Escolas Normais de Lisboa regulou a instrução primária através da Lei nº429 de 1916.
Laceiras – Vale da Vinha, Pala – S. Pedro de Alva, Mortágua – Penacova, Tomás da Fonseca – António José de Almeida…binómios que suscitam uma reflexão sobre a vida e obra destes dois republicanos, que apesar de postergados pelo Estado Novo (António José de Almeida, pela tentativa de apagamento, Tomás da Fonseca, pela via da perseguição e prisão política) e "mal-vistos" por alguns sectores da sociedade portuguesa, pelas suas ligações à maçonaria, não deixam de ser exemplo de homens de valores e de ideais. Ideais como "a respublica, o amor à “coisa pública”, na qual todos nos devíamos rever, esquecendo interesses pessoais, de classe, de grupo ou de partido, ou, pelo menos, não os sobrepondo aos interesses nacionais e regionais"- como escreveu recentemente o Professor Luís Reis Torgal no blogue Penacova Actual.
Mortágua não tem regateado esforços para honrar Tomás da Fonseca. Também Penacova tem travado algumas lutas para que a vida e obra deste seu ilustre filho seja cada vez mais compreendida, valorizada e enaltecida. Em 28 de Maio de 1976 a Assembleia Municipal de Penacova institui o dia do seu nascimento – 17 de Julho – como Feriado Municipal. Vamos, pois, no próximo domingo, celebrar cento e quarenta e cinco anos do nascimento de António José de Almeida e naturalmente evocar a sua vida e a sua obra, a sua luta pelos ideais republicanos e, com especial orgulho, o ponto alto da sua intervenção política - a Presidência da República Portuguesa.
David Almeida
Publicado no FRONTAL
Julho 2011
Julho 2011