terça-feira, 15 de novembro de 2011

Nos 30 anos da Aguieira: Plano de Ordenamento das Barragens foi pioneiro a nível regional

"No século XXI, falar em planeamento, em ordenamento, em PDM, felizmente que passou a ser linguagem comum a todo e qualquer cidadão informado" – escrevia, há uns tempos, no Diário de Coimbra, o Dr. Joaquim Leitão Couto. Também na recente inauguração da nova sede distrital do PSD, prestando homenagem ao Dr. Manuel Pereira (que foi Ministro da Administração Interna), voltou a realçar esta ideia, recordando que, quando em 1979 era candidato à presidência da Câmara de Penacova, aquele governante o aconselhara no sentido de que "a primeira coisa a fazer enquanto Presidente da Câmara" fosse propor a elaboração de um Plano de Ordenamento da Zona da Aguieira, envolvendo também as albufeiras da Raiva e das Fronhas.

Assim, em 1980, sob proposta de Leitão Couto, seis concelhos envolvidos contribuiram com 500 mil escudos cada um. Foi encomendado um estudo prévio ao Arq. Santiago Faria. Este documento viria a dar origem ao Plano Regional de Ordenamento da Zona da Aguieira (PROZAG), sendo Secretário de Estado o Engº Carlos Pimenta.

No artigo de o Diário de Coimbra a que nos estamos a referir, aquele autarca penacovense evoca a visita que fizera a um empreendimento turístico da zona (Montebelo Aguieira, cremos nós) que apesar de se situar no concelho de Mortágua, conta também com o contributo de Penacova, na medida em que sem a existência de um plano de ordenamento como aquele que defendeu, não teria sido possível a concretização de tão importante projecto turístico.

"É bem verdade que os homens passam mas as obras ficam" – recordou o Dr. Joaquim Leitão Couto, quer no texto em referência quer na homenagem recente a Manuel Pereira.
David Almeida
publicado no NE de Out 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Periódicos republicanos de S. Pedro de Alva

No último número traçámos as linhas gerais do Jornal de Penacova, que se publicou de 1901 a 1937, desempenhando, a partir de 1908, um papel crucial na defesa dos princípios republicanos.
A história da imprensa periódica no concelho de Penacova regista ainda outros títulos. De A Folha de Penacova e de O Progresso Lorvanense, bem como do Notícias de Penacova falaremos nos próximos números. Por hoje, deter-nos-emos em dois importantes jornais que se publicaram em S. Pedro de Alva: o Ecos de S. Pedro d'Alva e A Voz de S. Pedro de Alva.
No primeiro dia do mês de Maio de 1915 surge o Ecos de S. Pedro de Alva, periódico que manterá durante três anos uma publicação regular. Este quinzenário apresenta-se como ''Defensor dos Interesses da Casconha'' e assume-se como "consumação duma velha aspiração" de todos os ''republicanos convictos'' que pugnavam por aquela região com um espírito profundamente regionalista. Sob a direcção de Manuel Gentil da Natividade (professor) tinha como administrador António Nunes de Oliveira Serra. Joaquim dos Santos Cordeiro (mais tarde também ligado à Voz de S. Pedro de Alva) aparece como editor. Este jornal, propriedade da empresa "Ecos de S. Pedro de Alva", era composto e impresso no Porto, na Imprensa Comercial de Martins & Irmão, pois ali se encontrava estabelecido um significativo número de comerciantes e industriais oriundos da Casconha.

No conjunto das suas edições destaca-se o jornal de 1 de Abril de 1916 onde a toda a largura da primeira página se anuncia a formação do Governo da "União Sagrada" com fotografias de António José de Almeida, Afonso Costa e Bernardino Machado. Interessante é também a notícia em grande caixa, com título destacado "A Casconha tem Amigos queridos! O Chafariz de S. Pedro de Alva é um facto!" (1 de Fevereiro de 1917) anunciando o arranque dos estudos e prospecções tendo em vista a construção daquela tão ansiada obra, por influência do "querido amigo, o ilustre Senador, Sr. Lima Duque". Lima Duque figura importante da política penacovense e nacional, tinha, enquanto médico municipal, trabalhado em S. Pedro de Alva no início da sua carreia. A escassez de géneros de primeira necessidade e a crítica aos açambarcadores bem como a morte, em 1918, de João Gama Correia da Cunha, republicano convicto e professor do ensino primário de António José de Almeida, são exemplos da relevância que este periódico teve na região. Também a grave crise social e económica (na sequência da Primeira Guerra Mundial mas também das epidemias do tifo e da "pneumónica"e da grave seca que assolou o país) e a questão das "Subsistências" foi tema de notícia e de comentário neste periódico. Por motivo de inviabilidade financeira, o jornal teve uma curta existência: apenas 3 anos. Entre 1 de Maio de 1915 e 1 de Setembro de 1918 foram publicados 81 números.
Decorridos dez anos sobre a extinção do Ecos de S. Pedro de Alva, o Alto Concelho vê surgir um novo periódico, agora com o título A Voz de S. Pedro de Alva. Assumindo-se como ''Quinzenário Republicano Independente e Regionalista'', o primeiro número vem a lume no dia 16 de Abril de 1928, sob a direcção de Francisco Cordeiro dos Santos, tendo como editor e administrador, Eduardo Pedro da Silva. Tal como o Ecos, também era composto e impresso na Imprensa Comercial, no Porto. Nos últimos tempos de publicação passará a ser composto e impresso na Tipografia Lorvanense.
No primeiro editorial, ''Ao que vimos…'', é claramente expressa a missão a que o periódico se propõe: ''Faremos tudo quanto em nós caiba para trazermos à Casconha os melhoramentos a que tem juz, já que tão esquecida tem sido por aqueles que de nós só se lembram em ocasiões de eleições.'' Enquanto foi publicado, além da defesa dos interesses da Casconha, manteve acesa a chama republicana. Este jornal desempenhou um papel importante de defesa dos ideais da I República num período em que o Golpe Militar de 28 de Maio já se tinha verificado.  
É n' A Voz de S. Pedro de Alva que podemos encontrar a notícia desenvolvida sobre a morte, em 1929, de António José de Almeida. A capa da edição de 16 de Novembro é preenchida com o título: ''A Pátria e a República em Crepes: morreu o Dr. António José de Almeida'' E em subtítulo: ''Está de luto a Pátria e a República; está de luto o coração dos portugueses!'' Noticia A Voz que "assim que em S. Pedro de Alva, terra do venerando democrata, se soube do tristíssimo acontecimento, os seus conterrâneos vestiram de luto. A bandeira nacional, envolta em crepes, foi hasteada a meia adriça na nossa administração, ao mesmo tempo que eram expedidos muitos telegramas de pêsames à familia do egrégio cidadão. Ainda há poucos meses o ex-presidente da República, em carta, nos dizia que, quando estivesse melhor dos seus padecimentos, escreveria umas linhas para o nosso jornal, sendo dele as seguintes palavras: «Leio habitualmente a Voz de S. Pedro de Alva que é uma gazeta interessante, despretenciosa e séria. E para mais, estruturalmente republicana. Não desanimem» ''.
Este quinzenário não se cansará de enaltecer aquele seu ilustre conterrâneo, recordando que este grande "apóstolo da Democracia tinha um altar em todos os corações portugueses''. José de Oliveira e Costa escreverá que, perante o grande abalo que acabava de sofrer o país e ''sobretudo a grande massa liberal'' há que destacar o carácter bondoso deste vulto que ''professava a religião do Bem por interesse do próprio Bem''. Eduardo Silva, sobrinho de Eduardo Pedro da Silva, no artigo ''Horas de luto'' destaca também as qualidades de António José de Almeida, "o homem de palavra brotando da sua alma límpida, que na tribuna arrastava multidões em delírio de fé e patriotismo".
 
Publicar-se-á até 12 de Abril de 1934, dia em completará o sexto ano de vida. À data, Eduardo Pedro da Silva, farmacêutico, cunhado de António José de Almeida, acumulava as funções de director, editor e proprietário. No último número publicado, a suspensão não é abertamente declarada. No entanto, a afirmação de que A Voz de S. Pedro de Alva ''não morrerá'' mesmo que "alguma vez tenha de fazer um interregno", é já o prenúncio do fim próximo.

David Almeida,
artigo publicado no jornal FRONTAL de 9/11/2011
Fonte: David  Almeida, Penacova e a República na Imprensa Local, Edição da Câmara Municipal de Penacova. 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

Um pintor (des)conhecido dos penacovenses

Se bem se recordam os nossos leitores, propusemo-nos trazer a este espaço diversos nomes que traçaram, através das letras e da pintura, um conjunto de quadros sobre Penacova e o Mondego. Escrevíamos, há três meses atrás, que "existe um vasto leque de artistas que nos legaram raros momentos de idílica leitura e demorada contemplação estética", entre eles, os pintores Eugénio Moreira e José Campas.

Depois de, nos últimos números, recordarmos os textos de Emídio da Silva, faremos hoje referência a um pintor que está ligado a Penacova. Menos conhecido que Eugénio Moreira (de que falaremos nos próximos números), José Campas deixou marcas da sua obra no nosso concelho. Ainda hoje a Câmara Municipal possui um quadro a óleo seu, tendo como tema o Mirante. Foi oferecido em Maio de 1916 aquando da deslocação de Raul Lino a Penacova, acompanhado por Emídio da Silva, no momento em que se começava a projectar a construção da Pérgola.
 
Mas a ligação de José Campas a Penacova já vem, se não de antes, de 1914 quando esteve patente uma exposição do artista no salão do palacete (actual Casa de Repouso) de Joaquim Augusto de Carvalho e Raimunda Martins de Carvalho, por ocasião do "casamento elegante" de Alberto de Castro Pita com América Martins de Carvalho, filha daquele casal. José Campas de Sousa Ferreira (1888-1971) é autor de várias obras relacionadas com o concelho: "Paliteira e Tricana", "Trecho do Mondego", "Entre Penacova e Rebordosa" e "Mirante Emídio da Silva". Obras que, provavelmente, terão estado expostas naquela ocasião.

Nascido em Lisboa, estudou Belas-Artes nesta cidade e em Paris. Discípulo de Carlos Reis, Leon Bonnat, J. P. Laurens e Jacques Jobbé-Duval, foi um respeitado paisagista. Obteve a primeira medalha em pintura, pela Sociedade de Belas Artes e foi premiado no "Salon des Artist Français". Está representado no Museu Grão-Vasco, no Museu de Arte Comtemporânea, no Museu Soares dos Reis e em muitas instituições públicas e privadas. Foi crítico de arte na imprensa portuguesa, delegado do Governo Português na Exposição Internacional de Paris de 1937, restaurador de arte, bibliófilo, coleccionador de obras de arte, professor em várias escolas e Director das Escolas Técnicas de Lagos e Abrantes. Pertenceu, igualmente, ao Instituto Português de Arqueologia, tendo sido correspondente das publicações Annuaire de la Curiosité des Beaux-Artes e Bibliophilie.

Deste pintor falou o arganilense, Veiga Simões, (Arganil, 1888 - Paris, 1954) integrando-o na corrente do neo-lusitanismo. Num artigo de 1909 escreve o seguinte:
"O pintor José Campas, contrariamente a Raul Lino segue um processo espontâneo ferindo de exclusivo aspectos portugueses, buscados ora na paisagem, na escolha dos detalhes focados, ora nos tipos que completam os seus quadros, ora nos costumes, ora nos próprios monumentos que conseguem acordar no seu espírito alguma coisa de português, por algum lado real ou lendário que os ligasse à terra. Conheço-lhe um campo coberto de malmequeres onde a impressão da cor domina por completo, com recortes da máxima variedade, só perceptíveis por uma retina muito sensível à paisagem portuguesa e que intencionalmente buscasse esse efeito […]. Agora que a maioria dos pintores se lança exclusivamente por motivos ideais, este artista, tão claramente português, refugia-se na nossa paisagem, sentindo-a, nitidamente e trasladando-a, como coisa sua, para os quadros que trabalha."

José Campas foi, assim, uma importante figura da cultura portuguesa que se deixou seduzir por Penacova e pelas suas belezas, o que muito nos honra. Recordá-lo é um acto de justiça.

David Almeida
Nova Esperança,  Outubro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Jornal de Penacova (1901-1937)

Considerando a primeira metade do século XX, o concelho de Penacova viu surgir seis periódicos locais. Dois deles com uma vida relativamente longa.  Os restantes com uma efémera existência. No primeiro caso inclui-se o Jornal de Penacova e o Notícias de Penacova. No segundo, por ordem cronológica:  A Folha de Penacova,  Ecos de S. Pedro de Alva, O Progresso Lorvanense e A Voz de S. Pedro de Alva.

O Jornal de Penacova foi, segundo tudo leva a crer, o primeiro periódico a ser publicado nesta vila. Surgiu a 1 de Setembro de 1901. À sua fundação estão associados os nomes de Joaquim Correia de Almeida Leitão, José Ubaldo Correia Leitão, Júlio Ernesto de Lima Duque e Alberto Carrapatoso. No primeiro editorial intitulado ''A Caminho…'' escreve-se que Penacova não podia ''permanecer sequestrada dos embates do pensamento'' e afastada do ''progresso social que movimenta o vestíbulo do século XX, inundando de luz intensa a aurora secular que desponta''. Não podia – nem devia – ''quedar-se muda, indiferente e descuidada perante a necessidade de propaganda em pró dos seus interesses públicos, ela que tanto ardor tem posto no triunfo dos seus ideais políticos e administrativos'' sendo, pois, ''indispensável que tenha voz na imprensa para colher autoridade no concerto económico, político e literário da nação''.

Ao longo da sua existência (1901-1937) o Jornal de Penacova assumiu diversas tendências políticas. Inicialmente afecto ao Partido Progressista, ganhará a partir de 1908 uma inequívoca feição republicana. Em Dezembro de 1907, Amândio dos Santos Cabral, chegado de S. Paulo,''compra'' o jornal, e define um ''Novo Rumo" declarando "guerra aberta com a monarquia e o ultramontanismo." Em Janeiro de 1914, ainda com Amândio Cabral, como director e redactor principal, apresenta-se como ''Semanário Republicano Evolucionista'', numa identificação clara com a orientação política de António José de Almeida.

Em 1917, Amândio Cabral regressa ao Brasil e convida Alberto de Castro, do Partido Democrático, a assumir a direcção do mesmo. A propriedade continuará a ser de Amândio Cabral, mas agora com o lema ''Pela Pátria – Pela República''. Em 1918, ainda com Alberto de Castro, o Jornal assume-se como ''Semanário do Partido Republicano Português", colando-se assim ao Partido Democrático de Afonso Costa. Por motivos que desconhecemos, o Jornal de Penacova não se publicou de Setembro de 1919 a Maio de 1920, o que corresponde a cerca de oito meses de interregno. A 26 de Julho de 1920, Alberto Lopes de Castro Pita deixa o jornal e verifica-se outra mudança significativa. ''Vida Nova'' será o título do novo editorial. Assume a direcção Rodolfo Silva, filho do Dr. Rodolfo Pedro da Silva. Intitula-se agora de ''Semanário Independente''. Amândio Cabral cede a propriedade à empresa "Alves e Coimbra & Cª Lda". O editor passará a ser José Alves de Oliveira Coimbra.

Em 1922 o Jornal de Penacova suspende a sua publicação por um período de quatro anos, só voltando a aparecer em 1926. Regressará com o número 1040, em 12 de Junho de 1926. A ficha técnica aponta-nos para João Barreto como director, José Alves de Oliveira Coimbra como editor e Alípio Carvalho, como administrador. Neste "primeiro" número comenta-se o regresso: "Quando algum jornal começa a publicar-se ou quando depois da sua suspensão mais ou menos longa, reaparece, é da praxe dizer ao leitor ao que vem". Ora, "aqueles que esperam ver o Jornal de Penacova enveredar pelo caminho da má-língua e da intriga de soalheiro que se atribui às terras pequenas da província muitas vezes sem razões – enganam-se".

Na edição de 19 de Junho daquele ano junta-se à equipa Mário Quaresma Gomes, jovem professor a exercer em Chelo, assumindo a redacção. João Barreto abandonará a direcção em 30 de Abril de 1927, invocando motivos de saúde, mas manifestando também alguma discordância com a linha editorial. Mário Quaresma continuará como redactor principal e agora também como director. Em 1928, este cessa as suas funções, dando lugar a Eduardo Silva, filho do Dr. Rodolfo Pedro da Silva. Por sua vez, em Maio de 1929, surge como redactor deste "Semanário Republicano", António Casimiro Guedes Pessoa, que ocupará o cargo até 9 de Agosto de 1930, fazendo equipa com o editor José Alves de Oliveira Coimbra e com o administrador Alípio Carvalho.

Em 1930, verifica-se nova suspensão: de 9 de Agosto de 1930 (n.º 1254) a 1 de Agosto de 1931 (n.º 1255). Regressa com Eduardo Silva que será o redactor até 30 de Julho de 1932, data em que passa a editor, assumindo a direcção o seu pai, o médico municipal aposentado, Rodolfo Pedro da Silva. Terá como administrador o advogado Mário de Andrade Assis e Santos e apresenta-se agora como ''O mais antigo e de maior tiragem e expansão neste concelho".

"Novo Rumo": mais uma vez este título para traduzir uma nova mudança de orientação. Esta dá-em Janeiro de 1933 quando Horácio Cunha assume a responsabilidade do jornal. Em 1934, Alípio Correia Leitão deixa a administração que passa para Simões da Cunha e, em 1935, Eduardo Silva aparece de novo como redactor principal, cargo que manterá até ao último número (o 1456) saído em 1 de Janeiro de 1937.

O título Jornal de Penacova é recuperado quando, em 1997, surge no concelho um novo jornal, de periodicidade mensal, fundado e dirigido por Álvaro Coimbra. Propriedade da Penapress, publicou-se durante cerca de 10 anos, marcando positivamente o panorama jornalístico concelhio.

David Almeida,
jornal FRONTAL de 18 de Outubro de 2011

Fonte: Penacova e a República na Imprensa Local

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Visitar Lorvão em 1909

Nos dois últimos números acompanhámos Emídio da Silva desde Coimbra, vindo pela marginal do Mondego e com ele visitámos os pontos principais da vila de Penacova. A "rematar" estas "excursões" vamos hoje até Lorvão. Como é do conhecimento dos nossos leitores, e tal como fizemos anteriormente, vamos transcrever o artigo de L. Mano (pseudónimo), publicado na revista Serões.

"O Mosteiro de Lorvão foi um dos mais notáveis do país e apesar de se encontrar hoje (1909) em ruínas, e mesmo arrasado em parte, é ainda um monumento de subido valor histórico e um repositório de arte muito curioso e interessante. O convento fica ao fundo de um estreito vale, ocupando um local aprasível que se nos impõe pela sua austera beleza e que podia ser no Verão concorridíssimo, dada a frondosa arborização da encosta adjacente ao mosteiro e a frescura dos deliciosos mananciais de água que vêm dos granitos da montanha.

Mas a laboriosíssima aldeia não tem sequer ainda uma estrada que a ligue às outras do país e para se ir lá, de Penacova, pela estrada do Botão, tem de se deixar esta dois ou três quilómetros de Penacova e seguir a pé ou em burro por uma extensa ladeira que leva a descer 30 minutos!...

E no entanto, Lorvão bem merecia que os poderes públicos tivessem olhado um pouco mais para ela pois a simpática aldeia não vive passivamente da tradição dos seus monumentos, como outras de Portugal mas do constante e esforçado labor dos seus filhos que desde os de mais tenra idade até aos da mais provecta, se dedicam inteiramente à fabricação dos palitos de dentes, que tem ali o maior centro de produção do concelho de Penacova, do qual constitui, como é sabido, a indústria mais importante.

Mas se os poderes públicos deixam quase ao abandono os restos do grandioso mosteiro que é um monumento nacional !..O seu pitoresco claustro foi demolido e as cantarias vendidas ou roubadas! No esplêndido templo, de grandes e nobres proporções chove como na rua e o magnificiente coro que é um dos melhores exemplares da nossa época do rococó está destinado a desaparecer, atacado pelo caruncho ou pelas mesmas mãos que destruiram o claustro…

Quando vou a Lorvão e ainda lá encontro perdida naquelas ruinas solitárias, como um náufrago que escapou a cem porcelas, a custódia de prata dourada guarnecida de pedrarias – uma relíquia da nossa arte sumptuária do século XVIII – esquecida e inapreciada na vasta igreja, hoje sertaneja, e vejo ao mesmo tempo abandonados os sarcófagos de prata que contêm os restos das infantas, filhas de D. Sancho I, não posso deixar de fazer as mais amargas reflexões acerca da conservação que Portugal dedica aos seus monumentos."
Nota sobre Emídio da Silva:
Escreve a revista Serões: Colaborador há muitos anos e de várias secçõs do Diário de Notícias, e principalmente dos artigos financeiros, aos domingos, e das "Coisas e Loisas", às sextas feiras, possuindo vastos conhecimentos, tendo viajado largamente, Manoel Emygdio da Silva é uma
Individualidade em relevo no nosso meio da alta finança, literário e jornalístico. Deve-lhe a pitoresca povoação de Penacova uma propaganda activíssima, a ponto dos seus amigos o denominarem por gracejo o Cristóvão Colombo daquela adorável região.

David Almeida
in Jornal Nova Esperança, Set 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Colectânea de textos publicados no Penacova Actual


Domingo, 19 de Dezembro de 2010
Recordar Oliveira Cabral


PASSAM ANOS ... MAS NÃO PASSA

PORQUE NÃO PODE PASSAR

DO NATAL O ENCANTO, A GRAÇA

QUE A TODOS NOS FAZ SONHAR

Oliveira Cabral, não sendo de Penacova, a esta “ aprazível estância de repouso” – como escreveu um dia – vinha passar muitas vezes os seus tempos livres.

A este jornalista e famoso pedagogo, estão associadas as quadras “ Penacova-a-Linda ”, bem como a criação de “ Os Amigos de Penacova “, grupo que daria origem à “ Sociedade de Propaganda e Progresso de Penacova”, até há bem poucos anos activa.

Um parentesis : que é feito dela?

No jornal da época ( Notícias de Penacova) deixou muitos escritos, entre eles a poesia que aqui se reproduz , um recorte de 1960, com ilustração de Guida Ottolini, neta de Roque Gameiro.

Oliveira Cabral, um nome a trazer à memória dos penacovenses, na medida em que foi um arauto das belezas naturais de Penacova.

Voltaremos ao assunto.


Sábado, 6 de Novembro de 2010

No Centenário da República: António José de Almeida e a Reforma do Ensino Primário

Ainda a celebrar os Cem Anos da República (as Comemorações só terminam oficialmente em Agosto, um século depois da entrada em vigor da Constituição de 1911), achamos oportuno referir neste espaço dedicado ao passado, ao presente…e ao futuro de Penacova, uma das preocupações de António José de Almeida no campo da educação, figura multifacetada da I República e que, na nossa opinião, não é suficientemente conhecida dos portugueses e provavelmente da maioria dos penacovenses.

O nome de António José de Almeida está associado ao mais importante diploma sobre instrução primária durante a I República, assinado em 29 de Março de 1911, enquanto Ministro do Interior do Governo Provisório. Este Decreto com força de Lei, preconizava a reorganização dos serviços de instrução primária, laicizando o ensino, ligando as escolas às Câmaras Municipais, beneficiando os professores, dividindo o ensino em infantil e primário e, este, em elementar, complementar e superior. Esta reforma encerrava, assim, quatro aspectos fundamentais: descentralização administrativa do ensino; o ensino infantil, para menores de seis anos; o estabelecimento das escolas primárias superiores e a neutralidade escolar.

A sua aplicação no terreno foi, todavia lenta e de curta duração. O problema do insucesso das reformas da educação não é novo. E também, neste caso, isso aconteceu, o que não retira o mérito à proposta de António José de Almeida.

O que falhou? A descentralização administrativa, em teoria, não era, à partida, consensual. Acresce que as autoridades locais nem sempre conseguiam sobrepor-se a quezílias “ caseiras” e a propósitos por vezes duvidosos e obscuros. É assim que o Governo de Sidónio Pais, apesar de reconhecer o mérito da lei de 1911, acabará por concluir que as Câmaras Municipais não estavam preparadas para a gestão e administração do ensino, pondo ter a esse princípio descentralizador.

Quanto ao ensino infantil, que, diga-se a verdade, já fora preconizado durante os Governos de João Franco, só agora, começam a ganhar forma as escolas para menores de seis anos. Por todas as cidades se foram estabelecendo os Jardins - Escolas com o intuito de “aperfeiçoar os instrumentos de aquisição de conhecimentos e não tanto de os armazenar.”

Com a criação das escolas primárias superiores pretendia-se: alargar os conhecimentos gerais daqueles que por algum motivo não pretendiam frequentar os ensinos secundários e superior e tencionavam ingressar em carreiras profissionais de mais rápido acesso conforme as especificidades económicas das regiões. Já Alexandre Herculano havia preconizado estas escolas. Agora, elas vão surgir em grande número, mas por falta de definição clara dos seus objectivos e por recuo do seu grau de exigência, acabaram por sair desprestigiadas e perder a sua actualidade e pertinência.

Por último, a neutralidade escolar, pretendia que as escolas se abstivessem de toda e qualquer ideia ou educação religiosa. Ora, num país com uma cultura judaico-cristã de muitos séculos, fácil é adivinhar que esta medida não vingou por muito tempo.

Falhada ou não, esta Reforma de António José de Almeida ficará para sempre registada nos anais da história do Ensino Básico em Portugal, como uma reforma arrojada em todos os seus aspectos e bastante profícua, em especial no que se refere aos Jardins-Escola e às Escolas Primárias Superiores.

As Comemorações Centenárias, mais do que um ritual, deverão ser um pretexto para se reverem e estudarem acontecimentos duma época ou mesmo interpretar e reinterpretar atitudes, decisões políticas, que não foram entretanto devidamente apreciadas e reconhecidas.

António José de Almeida, filho desta terra, merece a divulgação de mais este aspecto da sua acção política enquanto Ministro do Interior no Governo Provisório que se seguiu ao 5 de Outubro de 1910.

David Almeida


Sábado, 20 de Novembro de 2010

Penacova - a eterna inspiradora de poetas


PAISAGEM DO MONDEGO

( No Mirante Emídio da Silva - Penacova )

A brisa enamorada sopra com fervor/Saltando mil beijos, doces, d' Amor/

Sobre as águas do Mondego cristalino...

Gorgeiam, cantam alegres os passarinhos,/ correndo velozes, procurando os ninhos,/

Soltando um doce, terno e mavioso hino!

Tudo é riso, encanto e formusura / E as penedias com tamanha alvura /

Formam um éden de mimo e de beleza...

E a vegetação assás luxuriante, / Dá-lhe o aspecto formoso e deslumbrante, /

D'um paraíso que nos legou a Natureza!...

Fonte do texto: Jornal de Penacova; Duarte Craveiro,

do livro em preparação " Flores da Primavera"


Sábado, 13 de Novembro de 2010

O Rancho do "Club Mocidade" e o Hino de Penacova

Em Junho de 1933, Penacova e Poiares, através das suas Filarmónicas e dos seus Presidentes de Câmara, José de Gouveia Leitão e Fernandes Coimbra, respectivamente, estreitaram laços de amizade entre estes dois concelhos.

Um dos pontos do programa incluiu a apresentação do Rancho do " Club Mocidade" da Cheira, que tinha como regente, Álvaro Alberto dos Santos.

Escreve o NP :

" As bandeiras das colectividades que se fizeram representar na nossa festa, com as bandeiras das filarmónicas e tendo ao meio a bandeira do nosso Município, alinham junto da mesa da presidência.

Pschiu!...Atenção!...música!...chegam acordes de uma orquestra!...harmonias de um côro que poisa ao longe!

É o Hino de Penacova, o hino da minha Terra que brinca contente em bocas felizes do rancho lindo do " Club Mocidade".

Um minuto de encanto, escolhido a tempo. Todos se levantam em sinal de respeito. E, lá ao longe, rapazes e raparigas dominados pela regência brilhante do músico-amador, Álvaro Alberto dos Santos, vão pondo entusiasmo e maior alegria na nossa festa(...).

O Rancho do " Club Mocidade" conseguiu mais um triunfo que a assistência premiou com demorada salva de palmas.

Aqui fica mais um apontamento para a história social, cultural e política de Penacova.


Sábado, 9 de Outubro de 2010
Penacova, Penacova, muda o nome, muda-o, sim?

Em resposta ao Bom Dia que Penacova nos deu hoje pela manhã, aqui fica um poema -
com alguns anos e talvez menos conhecido - enaltecendo as Belezas desta terra,
que segundo o autor, merecia um nome mais consentâneo:

Minha linda Penacova

Meu jardim de promissão

Cujas flores Deus renova

Com a sua própria mão!


O meu coração rendido

Bem sentiu, ao ver-te aqui

Que o paraíso perdido

O tinha encontrado em ti.


Mas, perdoa, Penacova

Mansão de sonho, ideal,

Se eu nesta grosseira trova

Do nome teu digo mal.

Quem, ó terra d’alegria,

De sol, de vida e de amor,

No teu nome – que heresia –

Pena e cova te foi pôr?

De berços e não de cova

Deve o teu nome falar;

A igreja o crisma aprova

Também te deves crismar.

Se há só prazeres apenas

Em tudo o que o céu de deu

D’ onde te vêm as penas,

Penacova, ao nome teu

Toda a gente velha e nova

Tem aqui tão lindo ar!...

Basta olhar e ver a prova…

Tudo aqui é de encantar…!

Ó terra cujas campinas

O Criador semeou

Das flores mais peregrinas

Quem foi que assim te chamou?
 

Um nome com pena e cova

Neste formoso jardim…

Penacova, Penacova,

Muda o nome, muda-o, sim?

 Versos do Dr. Alfredo da Cunha( grafia actualizada),

declamados pela Srª D. Maria Adelaide Coelho da Cunha,

no Sarau de 30 de Maio de 1908, no palacete do Sr. Joaquim Augusto de Carvalho.

( Joaquim Augusto de Carvalho foi um dos subscritores da Aclamação da República em Penacova e o seu nome também está ligado à oferta da imagem de N. Srª da Guia)

  Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Aguieira: se fosse hoje não seria construída...

A Barragem da Aguieira, se fosse hoje, não seria construída. A opinião é de Antunes do Carmo, Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, em declarações proferidas numa conferência, no âmbito da Pós-Graduação em Dinâmicas Sociais e Riscos Naturais, realizada há meia dúzia de anos.

Dado que se trata de uma obra de grande dimensão e se situa a apenas 35 quilómetros de uma grande cidade como Coimbra, nunca teria sido construída, à luz dos parâmetros actuais dos estudos de impacte ambiental.

Num cenário de ruptura, as águas atingiriam Coimbra num espaço de 45 a 60 minutos, formando uma onda de perto de 12 metros, recheada de blocos de grandes dimensões.

No entanto, nos próximos 30 anos apenas na presença de um forte sismo tal cenário é possível. É que, normalmente, até aos 60 anos de vida as barragens resistem. Passado esse prazo, os riscos começam a aumentar de facto.

Hoje a segurança está garantida, graças à monitorização permanente. Mas, sem alarmismos, é legítimo perguntar: e então daqui a 30 anos como vai ser?

Um pouco de história:

A construção da barragem da Aguieira, 1.º escalão do aproveitamento do Mondego e situada a jusante da confluência do rio Dão, viria a ser incluída nas realizações do III Plano de Fomento, por decisão tomada pelo Conselho de ministros para os Assuntos Económicos, em 12 de Maio de 1970.

A beneficiação da bacia do grande rio tornar-se-ia realidade já no governo de Marcelo Caetano e pelo grande interesse do ministro Rui Sanches.

O projecto foi revisto e actualizado em 1971, e em meados do ano seguinte foram iniciados os trabalhos na barragem da Aguieira, prevendo-se que o custo total atingisse os dois milhões de contos, a repartir entre o Estado e a Companhia Portuguesa de Electricidade.

Em 1975 a nacionalização do sector eléctrico e a constituição, no ano seguinte, da Electricidade de Portugal - EDP, fez com que os trabalhos para o aproveitamento passassem a ser assegurados por esta empresa.

As obras de construção civil e de instalação e montagem de equipamento na barragem da Aguieira, que permitiam o início da produção de energia, estavam prontas em 1981, o que permitiu asua entrada ao serviço em 1 de Outubro.

As obras na barragem da Raiva ficaram prontas em Dezembro de 1982, altura em que este aproveitamento iniciou a sua exploração em conjugação com a da Aguieira.

Finalmente, em 31 de Outubro de 1985, na sequência da conclusão dos trabalhos relacionados com a barragem das Fronhas, procedeu-se ao fecho das comportas das descargas e ao início de enchimento da albufeira, ligada, como foi atrás referido, à barragem da Aguieira por um túnel, para onde canaliza as águas do rio Alva.

In A Companhia Eléctrica das Beiras e o aproveitamento hidroeléctrico do rio Mondego, por João Figueira, no XXII Encontro da Associação Portuguesa de História Económica e Social Aveiro, 15 e 16 de Novembro de 2002
 

Sábado, 23 de Outubro de 2010

Hubris: a síndrome da Guerra do Iraque… ou quando o poder sobe à cabeça... noutros Iraques

A guerra do Iraque está de novo na ordem do dia, com a divulgação, pelo site WikiLeaks, de novos dados sobre a mesma.Tony Blair foi um grande defensor da invasão daquele país. A incapacidade para ouvir os que se lhe opunham merece-lhe um lugar entre os afectados pela Hubris.Também Bush,apesar dos resultados da intervenção militar,nunca deu o braço a torcer.

Mas não precisamos de ir muito longe, nem no espaço nem no tempo, para verificarmos que essa“ Síndrome de Hubris", por outras palavras, essa arrogância muitas vezes demonstrada pelos detentores do poder, constitui uma constante nos nossos dias e ao longo da história.

David Owen escreveu, em Abril de 2008, um livro intitulado “ In Sickness and in Power: Illness in Heads of Government During the Last 100 Years". Aí, aparece a expressão grega hubris para explicar, o que terá levado Tony Blair a unir esforços com George W. Bush no Iraque, contrariando quem desaconselhava o recurso à luta armada.

O que não saberíamos – e que Owen defende neste livro - é que, no fundo, os governantes são desculpáveis : a pressão e a responsabilidade que o poder implica acaba por afectar a mente e a capacidade de decidir . David Owen, neurologista britânico, chegou a esta conclusão depois de estudar, por mais de seis anos, o cérebro de alguns políticos.

Em Maio do mesmo ano, publicámos um artigo na imprensa, ao qual demos o título “ Quando o poder lhes sobe à cabeça”. Escrevíamos, mais ou menos assim:

“ Foi recentemente publicado em Inglaterra um livro intitulado, em tradução literal, “Na doença e no poder: a doença nos chefes de estado ao longo dos últimos cem anos”, escrito por David Owen, neurologista e político, fundador do actual Partido Liberal Democrata e ex-membro de Governos de Sua Majestade. Owen terá estudado durante seis anos o “cérebro” de muitos dos políticos do século XX, tendo concluído que existe uma doença que afecta alguns detentores de cargos políticos: a síndrome de Hubris. O termo hubris significa, em grego, excesso de confiança e orgulho desmedido. Uma incursão pela mitologia grega conduzir-nos-ia ao herói Hubris, que uma vez alcançada à glória se deixou embriagar pelo êxito e com isso passou a acumular erros até ao dia em que encontrou Némesis que o fez cair em si e ver a realidade.

David Owen acha que este “autismo” não é capricho pessoal, mas sim um estado de doença. É que, as pressões e a responsabilidade que o exercício do poder implica, afectam a mente e o comportamento dos políticos. Nesta perspectiva, o poder intoxicaria de tal modo alguns detentores de cargos políticos que o sistema neuropsíquico dos mesmos acabaria por ser afectado gravemente. Mesmo sabendo que esta doença não se encontra reconhecida pela Medicina, Owen aponta um conjunto de sintomas (síndrome) facilmente diagnosticáveis: exagerada confiança dos líderes em si mesmos, desrespeito e desprezo pelos conselhos daqueles que os rodeiam e progressivo afastamento da realidade. Além disso, quando as decisões se revelam erradas, não reconhecem os erros e continuam convencidos de que tomaram a decisão correcta.

A comprovar tudo isto, o autor enumera políticos como Hitler que, na sua opinião, é dos melhores exemplos de um governante completamente dominado pela Síndrome de Hubris. Outros nomes: Roosevelt, Mussolini, Margaret Thatcher, Mao Tsé-Tung, Tony Blair, Bush, Fidel, Mugabe, Saddam, Khadafy , Idi Amin…

Seguindo esta linha de pensamento, no caso português ( que Owen não refere ) quem incluiria, aqui caro leitor ? Salazar? Jardim? Sócrates? … deixamos a resposta em aberto.

Neste livro, em que Owen retoma um ensaio publicado no ‘Journal of the Royal Society of Medicine’ acerca do conceito de Hubris, chama-se ainda a atenção para as consequências do declínio mental e físico de muitos governantes dos nossos tempos.

Suficientemente credível ou não, entendemos que esta obra não deixa de ser um bom pretexto para uma reflexão séria sobre a política e os políticos que nos governam, a nível mundial, a nível nacional e a nível autárquico. Reflexão que nos ajudará a estar mais atentos e mais sensíveis perante este fenómeno ancestral de abuso do poder por parte dos seus detentores.

E existe cura para a síndrome de Hubris? - é legítimo perguntar. Por enquanto – reconhece Owen - ainda não . Uma “vigilância constante ", diríamos, apertada, sobre os dirigentes políticos, será um dos antídotos disponíveis…

David Almeida
 
Domingo, 10 de Outubro de 2010

A21L em Penacova: uma oportunidade perdida?

Perante a possibilidade duma grave crise política, económica e social a curto prazo, onde cada vez mais o global e o local se interpenetram nesta aldeia global, nesta megalópole integrada que é o nosso mundo, será que ainda há alguém preocupado com o facto de Penacova ter uma Agenda21 Local?

De qualquer modo, não queremos deixar de trazer, aqui e agora, o assunto. Quanto mais não fosse, porque nos próximos dias 20, 21 e 22 se vai realizar no Porto a GLOCAL 2010. Conferência que, para além de outros tópicos, vai fazer um balanço das actividades realizadas no âmbito da Agenda 21 Local (A21L). Acresce também que este assunto não é totalmente alheio ao concelho de Penacova.

Em Julho de 2006, veio a público um trabalho elaborado por Carlos Mendes e Paulo Costa, intitulado “ Penacova 21 – Plano Estratégico do Concelho de Penacova” , apresentando-se como “ ferramenta importante no seguimento do processo da Agenda 21 Local e na definição de um plano de acção.” Em 30 de Maio de 2009 , sob o lema "Elevar Penacova" , um grupo de cidadãos, no âmbito da sua ligação ao concelho de Penacova, organizou um almoço/debate subordinado ao tema “Elevar Penacova”. Os autores do referido trabalho apresentaram os objectivos da A21L e das Linhas Estratégicas de Desenvolvimento. Num segundo momento, todos os participantes contribuíram com “ ideias, preocupações, sugestões e partilha de experiências profissionais, tendentes a potenciar o futuro do concelho.” Em nota de imprensa foi referido que o encontro surgiu “ do facto, para além de sugerido por algumas pessoas, de na comunidade penacovense, praticamente não existirem debates sobre o concelho”. E “sem momentos de reflexão … sem debates … sem discussão de ideias …” – acrescentava o comunicado - “ dificilmente poderemos potenciar um desenvolvimento sustentável no concelho.”

Também, na reunião da Assembleia Municipal de Penacova, de 29 de Fevereiro de 2008 , o deputado municipal Paulo Coelho apresentou as suas preocupações , salientando que “no tempo em que a sociedade civil exige aos governantes melhores e mais rápidas resoluções dos seus problemas, contrapondo com o seu afastamento da discussão e acção politica, existindo assim um défice acentuado de participação, é necessário redemocratizar a sociedade , envolver a população nas decisões que nos influenciam no dia-a-dia e responsabilizar e aumentar os níveis de confiança”. Depois de apresentar os princípios da Agenda 21 Local e da Carta de Aalborg (Carta das Cidades e Vilas Europeias para a Sustentabilidade) lembrou que “o novo quadro do programa operacional da região centro, que integra o QREN na sua acção de valorização e qualificação ambiental, define como uma das tipologias prioritárias, em termos de apoio financeiro, a preparação e implementação das Agendas 21 Locais” devendo, assim, Penacova aproveitar os recursos financeiros que estariam disponíveis.

Mais recentemente, na reunião da Assembleia Municipal de 20 de Fevereiro último, também o deputado municipal David Almeida, referindo-se à questão da educação ambiental e à crise de participação cívica dos cidadãos na protecção e valorização do ambiente, da coesão social e desenvolvimento económico sustentado, questionou o Executivo Camarário sobre a implementação da Agenda 21 Local.

Ora, nem o executivo anterior, com maiores responsabilidades no assunto, nem o actual, terão pegado no tema. Muitos municípios portugueses apresentaram candidaturas ao QREN 2007-2013 na procura de fontes de financiamento externas para darem corpo a este compromisso que, antes de mais é de Portugal, a partir do momento em que, juntamente com 177 países , subscreveu este documento, saído da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que se realizou no Rio de Janeiro em 1992.

A partir de agora, mais difícil se tornará obter financiamentos à medida que nos aproximamos do fim do Quadro Estratégico de Referência Nacional, que, como sabemos, comparticipou com muitos milhões, estas e outras iniciativas.

Mesmo acreditando que os objectivos da A21L são pertinentes (e urgentes) e que, nesse sentido, não vão ficar “ na gaveta” por falta de dinheiro, fica o sentimento - com o 2010 quase a terminar - que Penacova já perdeu, mais uma vez, o comboio, o mesmo é dizer, uma oportunidade de promover o desenvolvimento sustentável baseado numa cidadania e democracia mais participativas.

 Domingo, 24 de Outubro de 2010

Recortes de domingo à tarde: água mole em pedra dura…

Vem este velho ditado a propósito do longo tempo que Penacova esperou para assistir ao inegável sucesso da exploração das Águas das Caldas de Penacova.

Há cem anos ( e certamente muito anos antes, outros o terão idealizado) já o Jornal de Penacova falava desta potencialidade , acreditando que um dia se tornaria realidade .O assunto foi sendo tema, ao longo do século XX, em diversos areópagos, muito especialmente na imprensa penacovense. Cinquenta anos depois ( 1952) a questão é colocada por E. Caixeiro, da Carvoeira, no Notícias de Penacova.

Em Penacova não têm, ao longo dos tempos, faltado ideias. Muitas delas com grande credibilidade. Só que a sua concretização leva demasiado tempo – e às vezes, somos levados a perguntar pelo porquê . Acode-nos então à memória o provérbio de todos conhecido, mas isso não nos pode acomodar . Se, por um lado, nos recorda a necessidade de não desistir, de insistir, insistir, por outro, gera um certo sentimento de impotência quando nos apercebemos que a velocidade dos tempos de hoje não perdoa uma década de atraso, muito menos um século… Já a ponte de Penacova, a ponte Luciano de Castro, demorou vinte anos, não a ser pensada e reivindicada, mas a ser construída. Os pilares terão estado anos e anos à espera de tabuleiro. O registo desse facto lá está, gravado na placa à entrada da ponte. Muitos outros exemplos podiam ser apontados…

Mas como também diz o povo , vale mais tarde que nunca. Felizmente que, ainda no século XX, Penacova viu nascer esta empresa de inegável interesse para o concelho. Recorde-se no feriado municipal de 2009 a Câmara de Penacova a agraciou ( coincidindo com o seu 10º aniversário) com a medalha de Mérito Colectivo. Empregando mais de meia centena de pessoas, conquistou um lugar de grande relevo, quer no mercado nacional quer no plano internacional, sendo hoje uma “imagem de marca” que leva bem longe o nome de Penacova.

Transcrevemos parte dos recortes de jornal que aqui trazemos hoje:

Jornal de Penacova de 29 de Agosto de 1908:
 
( …) lembramos a necessidade que há em mandar examinar a água que nasce na Mata das Caldas, propriedade do sr. Alípio Cardoso. As curas que muitas pessoas têm obtido, quer bebendo-a, quer banhando-se com ela, têm sido muitas. No entanto até agora nada se fez, não obstante todos reconhecerem a necessidade de se mandar proceder a uma análise química e bacteriológica da mesma.

QUEREMOS CRER QUE AQUELA ÁGUA VIRÁ A SER UMA FONTE DE RIQUEZA PARA A NOSSA TERRA E CONSEQUENTEMENTE UMA FORTE AVALANCHE PARA O SEU PROGRESSO E ENGRANDECIMENTO (…)

Notícias de Penacova:

(…) Mesmo ao fundo dos penedos da margem direita existe uma forte nascente. É pena essas águas não serem exploradas para umas termas. Porque é que o proprietário da referida nascente não leva essas águas a uma análise? Poderia ser aprovada para a cura de doenças como tantas. Penacova engrandecer-se-ia certamente com isso.

( oriexiaC E. - 17 de Agosto de 1952)

domingo, 2 de outubro de 2011

Visitar Penacova pela mão de Emídio da Silva


No número anterior acompanhámos Manuel Emídio da Silva ao longo da estrada de Coimbra a Penacova e, com ele, apreciámos melhor a rara beleza que esse percurso nos oferecia e ainda oferece actualmente. Hoje, também pela sua mão, vamos dar um passeio pela vila e arredores, seguindo as suas sugestões e prestando atenção aos seus comentários. Diz ele que "o viajante apressado que limitar a sua visita a Penacova a um simples passeio pela vila, ao adro da capela de Santo António, junto da linda vivenda do sr. Conselheiro Luís Duarte Sereno e ao Mirante Emídio da Silva, não viu o mais grandioso dos panoramas penacovenses." Sugere então que, para começar, se vá até ao Penedo do Castro.  

Penedo do Castro e Mirante

"A ascenção do Penedo do Castro faz-se por um caminho de pastores, que parte da estrada que atravessa a vila e se dirige ao Botão". Outro caminho será, se para tal se tiver pedido autorização, " através da formosa mata que fica sobranceira à vivenda solarenga do abastado capitalista sr. Joaquim Augusto de Carvalho e que é situada junto da referida estrada."

Emídio da Silva conta-nos depois a origem da nova designação para o Penedo da Cheira e enaltece a grandiosidade do panorama que daí se avista. Explica ele que " o Penedo do Castro, que é formado por uma aglomeração de rochas de granito que encimam a colina e se destacam da paisagem verdejante que circunda a vila, deve a sua designação actual a uma justa homenagem que os habitantes de Penacova e outros admiradores do sábio bibliófilo conimbricense Dr. Augusto Mendes Simões de Castro, reunidos com a Câmara Municipal da presidência do Dr. José Albino Ferreira, resolveram tributar a um dos mais antigos propagandistas das belezas da região, crismando no seu último nome o Penedo da Cheira, como era designado até então." Note-se que, um ano antes destes escritos, havia sido a inauguração do Mirante, bem como da lápide acima referida, onde estiveram além dele, Raul Lino, Alfredo da Cunha (director do Diário de Notícias) e outras personalidades da época vindas de Lisboa.

Mas Emídio da Silva compara os panoramas que se avistam do Penedo e do Mirante. É que, "ao passo que o Mirante Emídio da Silva é o centro de um grande sector, embora de rara beleza, o Penedo do Castro é o Centro de um círculo imenso. Se o panorama do primeiro encanta e extasia como um quadro que os olhos abrangem de um só relance e nele ficam pousados longamente, em uma enlevada contemplação, o panorama do Penedo arrebata e estonteia, e não se fixa facilmente, tantos são os sectores que ele tem para observar e quão diversas as paisagens que eles apresentam." Como muito bem observa, exige um "ver-se devagar".

A seguir a estas duas "excursões", este propagandista de Penacova, leva o leitor até Entre Penedos, começando por sugerir dois caminhos para lá chegar.

Entre-Penedos

"A excursão a Entre-Penedos pode fazer-se hoje de duas formas: pelo Mondego acima, de barco, que facilmente se encontra, ou descendo em trem a estrada de Penacova até à margem do rio, atravessando este depois sobre a magnífica ponte metálica José Luciano e seguindo a estrda da margem esquerda, numa extensão de dois quilómetros." E dá a sua opinião:  " A excursão pelo rio tem incontestavelmente maior encanto." Deixa também uma pequena explicação geomorfólógica daquele local: "Pretendem os geólogos que em épocas remotas não existia a estreita e extensa garganta formada pelos elevados rochedos entre os quais passa hoje rude e trágico o rio lendário dos idílios. O que é realmente certo, é que a estratificação das rochas de uma e outra margem se correspondem, camada por camada, como nas monumentais Portas de Ródão, no Tejo, parecendo evidente que nos primeiros períodos de formação do globo a serra do Bussaco não tinha ainda sofrido o corte que depois lhe fez o Mondego, quando a encontrou no seu curso e lhe escavou essa profunda e pitoresca trincheira que se chama Entre Penedos ou Livraria do Mondego, nome que o povo também lhe deu na imaginosa comparação que fez dos estratos dos xistos às lombadas regulares de uma biblioteca".

A terminar este conjunto de sugestões, que ainda hoje nos poderiam servir para um guia de Pedestrianismo, Emídio da Silva, não esquece o Montalto e o Penedo da Carvoeira. Montalto que, pela invasão actual do eucalipto, não nos permite observar o magestoso panorama que, neste texto de 1909, é descrito. Acompanhemos mais um pouco o nosso cicerone e ao chegar ao Montalto, a esse "ponto culminante" recordemo-nos, por exemplo, que "junto da capela postou Wellington algumas peças de artilharia por ocasião da batalha do Bussaco."

O Penedo da Carvoeira e o Montalto

"Entre outras excursões interessantíssimas e que constituem verdadeiras ascenções, devem ser preferidas: a do Penedo da Carvoeira, do outro lado do Mondego, defronte de Penacova, bastante curiosa pela colina em si, e ainda pelo panorama que se disfruta do ponto mais elevado, avistando-se toda a vila e grandes extensões de montes, vales e rio; e a da capela da Senhora do Mont'Alto no cimo deste monte, que é um ponto de vista dos mais notáveis da região, divisando-se de lá as caprichosas curvas que o Mondego descreve num longo percurso e um vastíssimo e também maravilhoso panorama."  
Ficamo-nos hoje por aqui. No próximo número acompanharemos o "Cristóvão Colombo" de Penacova na "excursão clássica" a Lorvão, onde o Mosteiro "apesar de se encontrar em ruinas" e mesmo "arrasado em parte " (1909) é ainda um monumento de "subido valor histórico", segundo a opinião abalizada de Emídio da Silva.

David Almeida
in NOVA ESPERANÇA
edição de Agosto 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

Alfredo Fonseca: uma voz inconformada perante a extinção do concelho (1836-1853)

A propósito do lançamento do livro (Farinha Podre) S. Pedro de Alva – Figuras e Factos para a sua História
Da esq. para a direita: Alfredo Fonseca, Padre Correia Alves, Deputado Maurício Marques,
Presidente da Câmara, Humberto Oliveira e Luís Adelino, Presidente da Junta


Em 1836 existiam no nosso país 817 concelhos. Duma assentada, Passos Manuel extinguiu centenas deles, reorganizou e criou outros, de modo que no final desta revolução administrativa tínhamos apenas 351 municípios. Não se conhece, com rigor, como esta política foi implementada, mas tudo parece indicar que esta racionalização se baseou em motivos económicos. Em muitos casos os concelhos duplicavam os impostos cobrados pelo Estado; empréstimos novos sobrepunham-se a outros para pagamento de despesa com encargos de empréstimos anteriores. Assim, tornava-se imperioso extinguir concelhos - refere o Diário da Câmara de Deputados - os quais não tinham condições financeiras e agravavam a vida dos povos.
No entanto, a Reforma Administrativa de 1836 se por um lado suprimiu muitos concelhos que pelas suas pequenas dimensões não se tornavam viáveis por outro lado manteve e criou aqueles que por motivos de factores naturais e humanos ofereciam condições de viabilidade. Uma política "realista, tendo em vista o desenvolvimento do país rural" na opinião de Carlos Proença, um sampedralvense que escreveu Notícias Históricas de Mondalva.

Ora, num momento em que o número de concelhos leva uma forte machadada, Farinha Podre tem o privilégio de ascender a concelho. No distrito de Coimbra igual sorte tem o concelho de S. Miguel de Poiares, que apesar de passado pouco tempo ter sido extinto conseguiu recuperar mantendo-se até hoje. O concelho de Farinha Podre não teve o mesmo destino. Logo no ano seguinte perdeu a freguesia de Carapinha para o de Tábua e com os ventos centralizadores da Regeneração acabou por ser extinto, passados dezassete anos, por decreto de 31 de Dezembro de 1853. Recorde-se que no distrito tiveram igual destino os concelhos de Coja, Midões, Ançã e Tentúgal.
Se no Código Administrativo de Passos Manuel os concelhos, como vimos, foram reduzidos para 351, no Código de Costa Cabral, de 1842, cresceram para 381; mas com Rodrigues Sampaio, em 1878, reduziram-se para 290. Em 1880, Luciano de Castro não mexeu nos municípios e com João Franco, em 1895, apenas se acrescentou um concelho.

Segundo Carlos Proença, no seu livro Notícias Históricas de Mondalva (uma obra valiosa, com um manancial enorme de informação credível, que temos a sensação de ser pouco lida e estudada pelas pessoas da região), à extinção, o que já não bastava, "seguiu-se um período de instabilidade em que, em correlação com as desavenças e contendas partidárias, S. Pedro de Alva [à época Farinha Podre] e outras freguesias de Mondalva foram sendo reivindicadas pelos concelhos vizinhos de Tábua e Penacova".
O que aconteceu por aqui aconteceu por muitas outras terras do país em que as coisas andavam ao sabor dos partidos e das respectivas clientelas políticas e as lutas eleitorais e a corrupção política eram prática corrente.

Escreve ainda Carlos Proença sobre a extinção do concelho: "Às gerações vindouras caberá aceitar esta situação, se a considerarem plenamente consentânea com os interesses dos povos de Mondalva, ou pugnar por que seja retomada a experiência de 1836".
Ora, é nesta linha de inconformismo que se ergue a voz de Alfredo Fonseca ao publicar agora o livro  (Farinha Podre) S. Pedro de Alva – Figuras e Factos para a sua História.  Nesta obra ressalta o sentimento de que nem tudo foi feito nesse "fatídico" ano de 1853 e nos que se seguiram, no sentido de anular a decisão de extinguir um concelho que, apesar de contar com uma experiência de apenas 17 anos, se afirmava na região com potencialidades muito superiores, por exemplo, ao concelho de Tábua. Existe um "retrato" do concelho de Farinha Podre na obra Memória histórico-corográfica dos diversos concelhos do distrito de Coimbra de António Luís de Sousa Henriques Seco, publicado precisamente em 1853, mas que ainda contempla este concelho. Aliás, refere o autor que na recolha de elementos teve o auxílio do Administrador Concelhio, David Ubaldo Leitão que deu o nome à rua que dá acesso ao Paço Velho. Como todos sabemos, David Ubaldo era pai do Conselheiro Alípio Leitão e de Alberto Leitão, naturais de Paredes e bem conhecidos dos penacovenses.

Inconformismo e revolta que leva Alfredo Fonseca a escrever: "Maldito seja quem tais medidas tomou e que a terra lhe seja tão pesada em cima, como o peso do monumento a Cristo Rei, no alto de Almada, ou o Mosteiro dos Jerónimos em Belém".
Nas primeiras páginas do livro Alfredo Fonseca apresenta curiosos documentos relativos ao descontentamento das populações e dos poderes públicos após a extinção, transcrevendo um conjunto de petições dirigidas ao Rei e à Câmara dos Deputados. O autor passa de seguida a transcrever actas das sessões da Junta de Paróquia (a primeira acta transcrita data de 1864), percorrendo os momentos mais marcantes desta freguesia desde esses tempos aos nossos dias, tornando assim, acessíveis a muito mais pessoas, os documentos que atestam as atribulações, mas também os sucessos desta localidade que há vinte anos recuperou o título de vila.

David Almeida,
texto, sem foto,  publicado em A COMARCA DE ARGANIL,
8 de Setembro de 2011
Fotografia: David Almeida