Referimos no penúltimo número (do Frontal) o percurso do Jornal de Penacova (1901-1937) e, na última edição, escrevemos sobre os jornais republicanos de S. Pedro de Alva, nomeadamente o Ecos de S. Pedro d´Alva (1915-1918) e A Voz de S. Pedro de Alva (1928-1932). De modo a concluirmos este conjunto de apontamentos sobre os periódicos penacovenses no período que vai de 1901 a 1978 (aparecimento do Jornal de Penacova e fim do Notícias de Penacova, respectivamente), há que recordar A Folha de Penacova, O Progresso Lorvanense e o Notícias de Penacova.
No dia 19 de Janeiro de 1902 vem a lume A Folha de Penacova, afirmando-se como ´´Semanário dos Interesses do Povo da Comarca´´. Apresenta como editor César de Morais Queiroz e como proprietário José Maria de Oliveira. A redacção e a administração estavam sedeadas na Rua do Arcediago Alves Mendes e era impresso na Rua Martins de Carvalho, em Coimbra. Tal como refere o primeiro editorial sob o título ´´Na Brecha´´, Penacova que ainda há uns meses estava bem longe de ter imprensa sua, passa agora a ter dois periódicos."
A Folha de Penacova surge em nítido confronto com o Jornal de Penacova, que "alcunhava" de Canudo. Afirma-se no referido editorial: ´´Militamos na política que foi a de nossos pais, naquela mesmíssima política que já foi a de todo este concelho, e à qual se deve tudo que por aí há de melhor. […] Se certos farroncas tiveram o desplante de a renegar, não podemos nós outros abjurá-la.´´ O jornal afirma-se, assim, como afecto ao Partido Regenerador, "honrando a memória de Fernando de Melo" e "rendendo-se à chefia do Conselheiro Hintze Ribeiro."
Durante a sua breve duração (terminará com o 12.º número a 10 de Abril de 1902) iremos assistir a um violento e cerrado ataque a Júlio Ernesto de Lima Duque, militar-médico, genro do Conselheiro Alípio Leitão e membro influente do Partido Progressista. A Folha de Penacova vem a terreiro defender o Administrador do Concelho, Alfredo de Pratt, que estava a ser atacado por Lima Duque no sentido de ser afastado do cargo. O tom polémico, irónico, por vezes ofensivo, foi uma constante das edições daquele semanário durante toda a sua existência – o primeiro trimestre de 1901.
A 23 de Janeiro de 1921 aparece O Progresso Lorvanense, semanário ´´Independente, Defensor dos Interesses da Região´´. Joaquim Jerónimo Rosa da Silva é o editor e director, enquanto Manuel Ferreira Pedrosa assume a administração. O jornal é propriedade do ´´Lorvanense Club´´. No editorial afirma a sua isenção política dizendo que ´´não tem política partidária´´ mas sim uma ´´política de fomento´´. De 23 de Outubro de 1921 a 2 de Abril de 1922 suspende a publicação. Em 11 de Junho de 1922 regressa com o n.º 41, sendo agora propriedade da Empresa Industrial de Lorvão.
O período em que é publicado corresponde a uma fase conturbada da vida local: a exoneração do Padre Carlos Fernandes Seabra, mal aceite pela maioria da população, facto a que o jornal dá acolhimento em defesa do presbítero. O caso foi mesmo apelidado de Cisma de Lorvão, dado que só "as povoações da Serra haviam ficado fiéis à Igreja." Ao longo do curto período de existência dominam os conflitos quer com padres do concelho, quer com o Bispo de Coimbra.
Terminará a publicação com o n.º 68, em 15 de Outubro de 1922. Lorvão só voltará a ter alguma voz na imprensa local quando, em Dezembro de 1952, José Manuel Rodrigues (Pároco) e Edmar Guimarães de Oliveira, lançarão a Página da Freguesia de Lorvão, de periodicidade quinzenal, integrada no Notícias de Penacova.
À vida curta destes jornais virá contrapor-se o Notícias de Penacova que teve uma existência bem mais longa: quase 50 anos. Nasce a 26 de Março de 1932 assumindo-se como ´´Semanário Regionalista´´. Enquanto director e proprietário surge o nome de José de Gouveia Leitão (filho do Conselheiro Artur Leitão) e terá como editor João Barreto (que estivera ligado ao Jornal de Penacova). O redactor principal é Joaquim Jerónimo da Silva Rosa, natural de Lorvão e escrivão do Julgado Municipal de Penacova de 1931 a 1937. O administrador era o professor e delegado da Junta Escolar, José Joaquim Nunes. Apresenta-se como ´´integrado na corrente que de norte a sul se desenha´´. Passado um ano de publicação, o jornal assume-se como afecto do "nacionalismo triunfante". Até 1937 coexistirá com o Jornal de Penacova num clima de alguma tensão. Exemplo disso, foi a polémica que estalou em 1935 intitulada "O Jornal de Penacova e os Glorificados", atacando Alípio Leitão, Horácio Cunha e Assis e Santos e acusando aquele periódico de ser o "órgão do reviralhismo penacovense".
Nas últimas décadas de existência será marcado pelas figuras do Prof. e Delegado Escolar Joaquim de Oliveira Marques, do P.e Manuel Marques e do Arcipreste, e mais tarde Cónego, Manuel Vieira dos Santos (que era o seu proprietário). Com a morte deste em 1966, a sua gestão passa para a Igreja de Penacova. Após o 25 de Abril de 1974 Joaquim de Oliveira Marques é "saneado" e passarão a ser os sucessivos párocos de Penacova os seus directores.
Nos 46 anos de existência publicaram-se 2175 números. Por motivos financeiros, terminará em 8 de Dezembro de 1978.
Refira-se que no ano de 1979, Penacova não terá nenhum jornal, mas em Janeiro de 1980 surgirá o Nova Esperança, sob a égide do Prof. Egídio Fialho Santos e do P.e António Veiga e Costa. Em 1997 ressurgirá o título Jornal de Penacova, pela mão de Álvaro Coimbra, publicando-se durante cerca de dez anos.
Fica assim traçado o percurso da imprensa local penacovense. Nas suas páginas, muitas delas amarelecidas pelo tempo, podemos encontrar valiosos elementos para o conhecimento da história local e para a compreensão do que Penacova foi no século passado e pretende ser neste século XXI.
Fontes: David Almeida, Penacova e a República na Imprensa Local, edição da CM de Pencova, 2011
DAVID ALMEIDA
In CRÓNICAS PENAVOVENSES, edição online do Frontal